Experienciar

     Para entender como escrever esse blog, busco referências, leio e releio todas as fontes que consigo na internet e nos livros que adquiri e hoje compõem a minha estante, sendo entregues a outras mãos para que a sua estranha energia ganhe nova vida (ver posts sobre desapego). Uma destas leituras foi “Experiência”, de Nikelen Witter (http://nikelenwitter.sul21.com.br/2013/06/experiencia/) e hoje me ponho debruçado a pensar nas experiências que me foram passadas pelos olhos do meu querido e terno pai.
     Quando olhava para os olhos, os gestos, as rugas, os movimentos do meu querido Jordão, não tinha dúvidas: estava defrontando um homem de grande sabedoria e de importantes memórias. O peixe bruto, com escamas e miúdos – alguns pulsantes –, era uma realidade e a concretização do amor. Nunca entendi a relação que construímos até vê-lo limpando o peixe, mesmo com dor, mesmo com impossibilidades. Meu pai era, naquele momento e em tantos outros, meu herói.
     Com a faca nas mãos, o desejo em demonstrar seu amor pelos filhos, o respeito à vida que o alimentava são inesquecíveis. Era preponderante a chefia que orgulhosamente exercia sobre a família, fonte de sorrisos para aqueles filhos, genros e netos que interceptavam a mesa conjunta dos Natais e das Páscoas. Quando entrega o peixe á minha mãe, em um primeiro olhar, o que se tinha era uma displicência – rapidamente desmantelada. Na verdade, o que ocorria era a cumplicidade construída em anos de casamento com aquela moça que sempre falou ao coração dele. Passar o peixe era meditar sobre a importância daquela grande mulher por trás de todas as suas ações.
     Quando o peixe chegava à mesa, naquela cama de alfaces e acompanhado por cebolas e, às vezes, por batatas cozidas, o conjunto era um exercício de autoridade que impunha a presença e certa solenidade no trato, mas que trazia a confiança na formação de uma família pelo afeto. Saudades daquelas mãos calejadas, daqueles olhos sedentos de mar, daquela boca que sugava a carcaça do peixe: alimento não se joga no lixo.
     Desisti da sala de aula por não enxergar essa cordialidade. O professor, como o pai, é aquele que pode apaziguar experiências. Não é um salvador ou uma vocação: é uma forma de olhar a vida. O professor instrui, orienta, versifica as verdades. Entoo Raul Pompeia, ainda que num tom menos profético: “Devemos ao pai a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorites de sensação)” (POMPÉIA, Raul. O Ateneu. São Paulo: Nobel, 2010. p.10). Hoje não há isso. Docente virou bedel por falta de bedéis afetuosos na formação dos seres humanos.
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